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Os segredos que ninguém quer desvendar

02/06/2017

segredos

Pode ser que ela fale mais do que seja confortável. Pode ser que ela chore. Pode ser mesmo que ela grite às vezes.

Mas a verdade é que, com tudo isso, você não está nem perto de saber do que se passa no coração de uma mulher. Quanta dor cabe num espaço tão pequeno. Quantas feridas você ativou, quantas cicatrizes você abriu, quantas pequenas terminações nervosas sua insensibilidade irritou.

Dificilmente você vai saber o quanto você realmente importou para ela. Seja para mais ou para menos. Não importa o que ela diga.

O que importa é o que ela faz por você e o que você vê quando ela olha dentro dos seus olhos. Mas claro, você provavelmente não tem muito tempo para isso. Quem tem tempo para ler um olhar nos nossos dias.

Existe trabalho e compromissos, inúmeros compromissos. Os homens que abraçaram a modernidade precisam buscar dinheiro até o quase suicídio para se sentirem importantes. Precisam ter algo para lembrarem-se de quem são. Apenas ser é arte que não sabem mais, ficou com a sabedoria dos avós.

E a compreensão do que deixaram para trás, a consciência daquele coração lacerado que os quis mais que a razão, ficará para a terceira idade, para os remorsos que colecionamos antes de morrer.

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Peso invisível

31/05/2017

tristeza

Sempre há alegria nos dias. Algumas risadas, tarefas bem feitas, ou stress e novas decisões. Tudo vem e tudo vai, como o budismo prescreve.

O que não sai do peito é essa tristeza. Está  aí há tanto tempo que já começo a me acostumar com ela. Esse vazio. Uma ausência. Que mesmo entre o riso e as alegrias não dá paz.

O peso do teu silêncio.

Engordo lentamente. Logo vou me tornar algo insosso, informe e flácido como certa gente infeliz e conformada que conheço.  Conformar-se com a perda do especial, com a manutenção do burocrático, com as infelicidadezinhas diárias é a patologia do século. Embucharemos engasgados em nossa infelicidade com coca, nutela e outros lixos disfarçados de alimento.

Engolimos as toxinas da nossa tristeza, que também são lixo. E com ela soterramos nossa alma e os pontos que ousaram sair da curva.

 

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Rompe

15/05/2017

corda

Na vida, eu me apaixonei por muitas pessoas. Muitas.

Mas algumas eu julgava especiais. Porque algumas eu acreditava que não eram capazes de abandonar. Nem todas eram relacionamentos românticos.

E a idade me ensinou uma coisa sobre isso. Existe um fator comum aos seres humanos. TODOS ABANDONAM. Cedo ou tarde. Amigos, namorados, irmãos, filhos.

E alguns pais. Não deixo de pensar que os que não o fizeram foi só porque a morte os levou antes..

E é cada vez mais comum. É a solução mais prática. Ou a única, segundo alguns, para justificar seu grau de covardia.

O abandono resolve a tristeza que eu não quero ver. O peso que eu não quero carregar. A decisão que eu não quero tomar. O abandono é o que é justo para mim. Porque eu não posso carregar o mundo nas costas. E merecimento não tem nada a ver com isso, segundo muita gente boa que eu conheço.

Enfim, o que eu estou a fim de fazer prevalece sobre tudo. Prevalece sobre o sofrimento do outro, sobre a sua necessidade. O que eu estou a fim de fazer justifica tudo.

E o que eu descobri com os anos é que isso os nivela a todos, meus queridos.  Homens ou mulheres, vocês são todos iguais. O amor que eu tenho por cada um é os que os distingue. O amor que não conseguem sentir por mim os iguala.

 

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Das bases

09/05/2017

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E de repente, suas últimas confianças são pó. O alicerce era fraco demais. Tudo desmorona.

Toda rocha era pedra sabão. Ou talvez mesmo,  uma pedra de sabão.

Não há nada, não há nada. Não há onde se apoiar e isso mina a vontade de ir adiante. Porque se eu der um empurrão não sei onde meus pés vão parar.

O sentido deixa de fazer sentido. A vida é um receptáculo oco flanando no vento.

Não há porque discutir quem está certo. O único desejo é deixar de existir.

 

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Em busca da leveza perdida

25/04/2017

leve

 

Hoje é certo que o corpo ficou mais leve, mas a alma anda mais pesada.

Sinto saudade de mim mesma livre, dançando descalça sob o sol ou em torno de uma fogueira. Sinto saudade do meu vasto grupo de amigas mulheres, com suas crianças que sentavam no meu colo com intimidade.

Saudade de apreciar a delícia de um pão de aipim com café com leite, de não ter tanta lembrança atrás e tanta imprecisão à frente. Sei que a solução para isso é viver meu momento presente, mas as linhas do tempo se embaraçaram e ainda estou buscando meu no presente onde por os pés.

Uma saudade extrema da minha ignorância. De não ver, não intuir, não lembrar.  Saudade de não ter morado em Montevidéu e só imaginar como poderia ser. Saudade de não ter provado algo que sempre procurei,, e por não haver provado, ainda não haver perdido.

Saudade de não ter que lutar diariamente com esse tsunami de sentimentos tão intensos.

Queria apenas dançar sob o sol, com as crianças. Tomar chá cigano e rir da vida. Não ter muito dinheiro, nem muita expectativa. Apenas desfrutar de ser, como antigamente.

 

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Queda de braço

17/04/2017

Resistindo, lutando, aguentando. Suportando mais dor do que seria razoável.

Tendo que argumentar, lutar, defender o que seria o óbvio. Estou cansada.

Conviver com os outros seres humanos se torna cada vez mais cansativo – o que não significa que não reconheça meus defeitos. Reconheço. Mas não suporto mais justificar o afeto.

Eu não suporto mais que seja tão difícil suportar, não meus inúmeros defeitos, mas as poucas qualidades que briguei tanto para desenvolver em mim.

Pagar o preço não da minha incoerência, mas da alheia.

Eu não quero ter que deixar os valores que acredito para não ser massacrada por quem não compreende os próprios valores. Não quero pedir desculpas por ser quem escolhi ser.

Porque eu voltei de viagem disposta a ser muito mais eu mesma. E lamento muito se você não se enquadra.

 

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Pequeño cuento de bruja

13/04/2017

ojos de bruja

Diabo de mulher, que não me tira os olhos de cima. E quando tira, me vê com outros olhos.

Que me vê na meditação da manhã. E não larga de sonhar comigo. Lembra de mim soldado de Deus, quando eu não sei de nada. Eu não lembro dessas coisas. Um dia acordou do meu lado e me contou como era quando fomos marido e mulher. E fica me sentindo e vendo sinais. Tira as cartas pra mim sem me consultar e perscruta meu destino nos céus.  Diz dos meus olhos coisas que eles nunca tiveram.

Para que raios serve isso na vida de um cristão? Eu não quero saber as coisas que não sei. Prefiro não ouvir do que vai acontecer, se mal entendo o que acontece agora. Nem quero ela mais do meu lado. Não, isso não é para mim. Preciso de gente normal pra conviver.

Verdade que longe também incomoda um pouco. Mas por que ela tem que ser assim? Por que de tantas mulheres, logo uma bruxa? Por que com tantos homens para amar, logo a mim?

É certo que nunca estou sozinho, nem dormindo. Quem disse que isso é bom?