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El grán colectivo

19/06/2017

Apenas 74% dos participantes sabiam que a Terra gira em torno do Sol

45 anos.  Girando e girando em torno do sol nesse ônibus circular gigante cheio de maluco dentro.

O itinerário não muda, nem tem sentido inverso. E não pára em lugar nenhum, havia de melhorar os serviços

Tanto tempo aqui e nem consigo mensurar a importância do que possa ter feito. Sei que somos partículas, grãozinhos de areia desimportantes nesse universo gigante. Mas até grãozinhos de areia tem seu insignificante propósito e não sei nem se comecei a cumprir o meu.

Com exceção dos meus pais e do meu ex-marido, não tenho certeza se alguma vez fui amada pelas muitas pessoas que amei. E amei muito nessa vida. Mas também não sei de deixei de amar alguém que me amou de verdade.

Não sei se os trabalhos acadêmicos que escrevi, se as aulas que dei, se os textos que melhorei, se os eventos que coordenei, os tarôs que joguei, os mapas que analisei mudaram alguma coisa na vida de alguém. Nesse sentido deve ser bom ser médico ou policial: eles pelo menos tem algumas certezas.

Eu não tive filhos. O que, segundo minha falecida mãe, me exigiria muito trabalho voluntário para compensar o mundo  da graça de existir. Fiz muito trabalho voluntário. Não sei se foi suficiente, mãe.

A parte viva da minha família declara publicamente que me preferia morta para facilitar seu usufruto da (mínima) herança deixada por meus pais, o que deve indicar que eu também não fui muito boa nas outras funções familiares.

Não tenho grandes vícios. Não fumo, não me drogo. Gosto de bebidas alcoólicas, mas não cheguei nem perto do hábito. Não estourei cartões de crédito em crises consumistas, nem dilapidei fortunas que não tive.

Nunca matei. Nunca agredi. Dei uns tabefes na cara de uns poucos moços na juventude, todos muito justificados, nada que desse conta de ferir de verdade. Meu único roubo se limita a uma suéter do homem que eu amo, por razões de pura pieguice. Não soneguei impostos (até porque no Brasil seria mais simples e impune um homicídio), não lembro se usei software pirata, mas compartilho obras em pdf, sim.

Traí e fui traída na mesma proporção, acho. Mas fui abandonada um número de vezes infinitamente superior.  Com meu mau gênio, não é surpresa. Não colava em provas. E não passava cola. Nunca plagiei um trabalho acadêmico, mas já fui descaradamente plagiada.

Evito deixar as pessoas esperando. E se deixo, aviso. Mas sempre espero. Cumpro prazos. Não dou calote – no máximo, contingências me impedem de pagar pessoas jurídicas, que prontamente cortam seus serviços.

Desenho mal. Escrevo bem. Tenho algumas noções sofríveis de música, artigo de luxo nesse país. Esforcei-me muito para aprender a expressar-me através da dança. As demais artes nunca me foram acessíveis.

Acho que me ajeito razoavelmente bem em dois idiomas, me viro em outros três, conheço um sexto e tô aprendendo um sétimo. As pessoas acham isso muito legal, mas eu sempre acho que se tivesse tido internet na adolescência eu faria tudo isso muito melhor. Mesmo porque é minha área, sou uma nerdzinha dos infernos e não é mais que minha obrigação.

Tenho fé, mas nem por isso agi sempre de acordo com a intenção de Deus. E nem sempre foi ignorância, teve muita teimosia, mesmo. Quase sempre levada pelo coração, esse puto inconsequente.

Não espero servir de exemplo para ninguém. Nem bom, nem mau. Sou muito adepta do adesivo traseiro do geminiano: “não me siga, não sei para onde estou indo”.

Isso não é uma explicação, nem uma justificativa. É uma reflexão, mais para mim mesma que para qualquer um.  Aos 45, apesar do riso de alguns, por algum motivo me sinto bem perto da morte. Não entendo o mundo como está agora e não sei se quero. Minha única pretensão é sair desse corpo melhor do que entrei, um pouquinho que seja. Mas pretensão nem é esperança.

 

 

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