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Da dor como rotina

28/07/2017

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Dor. É para ser um evento esporádico. Mas às vezes não é e precisamos conviver com essa realidade.

O ombro direito, até o meio do braço, me dói todos os dias há meses. Na última semana, um ponto a meio caminho entre a nuca e o pescoço, também do lado direito, lateja continuamente. Com esse latejar constante, é comum que a cabeça comece a doer junto. Ontem, foi tão intenso que deu náuseas. Ocasionalmente, isso inclui a participação da minha cervical.

Não se preocupem porque não é nada grave. Só resultado da postura para trabalhar, mais deixar pequenas dores se acumularem sem cuidar, mais uma somatização absurda.

Porque me dói o corpo, mas a alma dói mais ainda. Nunca pensei que a deslealdade e a ausência pudessem doer tanto. Como se tivessem arrancado um pedaço e estivesse em carne viva. E tiram a casquinha todos os dias, porque é importante que permaneça sangrando.

O aprendizado com essa constância é ter paciência consigo mesma e seguir em frente. Todo dia é preciso avaliar até onde dá. O que eu consigo fazer. Até onde dou conta de ir. Forço um pouco mais ou pego um pouco mais leve comigo? Todos os dias tenho que descobrir a resposta.

Não estou só. Tenho amigos queridos e uma terapeuta maravilhosa que me permitem transpor de uma semana para a seguinte. Mas a decisão, essa, do até onde, do até quando, do até quanto, apenas eu posso tomar.

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Machacando recuerdos

05/07/2017

Fresh herbs with a mortar and pestle and vegetables on a woodenPreparando num velho almofariz a mistura verde com que curo minhas mazelas, como uma velha bruxa do século XII ou menos, vejo no fundo de tudo as lembranças que saem como a seiva das folhas.

Um dia esse mesmo almofariz triturou limão e mascavo para a caipirinha de um piquenique noturno.  E o cheiro do café todos os dias me traz o seu riso.

E eu nunca mais preparei brigadeiro, porque é doce de comer, não de colher, mas na sua boca. E me falta recipiente.

Mas tão antigo é o movimento de triturar e tão imemorial o odor das ervas esmagadas que me lembro também do sol no seu camisão branco de dormir ao meu lado, meu querido esposo, em uma casinha de madeira e  barro e palha no meio de uma plantação qualquer muito ao leste daqui. E do seu braço de soldado me soerguendo sobre a montaria, no percurso leve de amor que me levaria para a morte.

E outras memórias antigas e atemporais que faço força para pulverizar junto ao sal grosso.

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Huellas del tiempo

28/06/2017

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Existem marcas. Datas. Aniversários.

Normalmente as pessoas que te marcaram das datas nem fazem caso da passagem do tempo. Não se dão conta das marcas que te deixaram na casa, no corpo, na alma e no coração.

Estamos num tempo de velocidade e de esquecimento.  Num tempo onde se finge não sentir.

Mas eu sou uma pessoa muito velha, com uma memória muito antiga. Eu ainda lembro cada passo, cada laço, cada palavra. Cada toque, cada tremor, cada riso, cada gota. Eu me lembro de cada peça de roupa, de que bolso da mochila estava guardado, de cada linha de mensagem. Eu me lembro dos cafés, das praças. Eu sempre me lembro de tudo. E sempre amo muito.

E nisso de amor há que se ter coragem para sentir dor.

 

 

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El grán colectivo

19/06/2017

Apenas 74% dos participantes sabiam que a Terra gira em torno do Sol

45 anos.  Girando e girando em torno do sol nesse ônibus circular gigante cheio de maluco dentro.

O itinerário não muda, nem tem sentido inverso. E não pára em lugar nenhum, havia de melhorar os serviços

Tanto tempo aqui e nem consigo mensurar a importância do que possa ter feito. Sei que somos partículas, grãozinhos de areia desimportantes nesse universo gigante. Mas até grãozinhos de areia tem seu insignificante propósito e não sei nem se comecei a cumprir o meu.

Com exceção dos meus pais e do meu ex-marido, não tenho certeza se alguma vez fui amada pelas muitas pessoas que amei. E amei muito nessa vida. Mas também não sei de deixei de amar alguém que me amou de verdade.

Não sei se os trabalhos acadêmicos que escrevi, se as aulas que dei, se os textos que melhorei, se os eventos que coordenei, os tarôs que joguei, os mapas que analisei mudaram alguma coisa na vida de alguém. Nesse sentido deve ser bom ser médico ou policial: eles pelo menos tem algumas certezas.

Eu não tive filhos. O que, segundo minha falecida mãe, me exigiria muito trabalho voluntário para compensar o mundo  da graça de existir. Fiz muito trabalho voluntário. Não sei se foi suficiente, mãe.

A parte viva da minha família declara publicamente que me preferia morta para facilitar seu usufruto da (mínima) herança deixada por meus pais, o que deve indicar que eu também não fui muito boa nas outras funções familiares.

Não tenho grandes vícios. Não fumo, não me drogo. Gosto de bebidas alcoólicas, mas não cheguei nem perto do hábito. Não estourei cartões de crédito em crises consumistas, nem dilapidei fortunas que não tive.

Nunca matei. Nunca agredi. Dei uns tabefes na cara de uns poucos moços na juventude, todos muito justificados, nada que desse conta de ferir de verdade. Meu único roubo se limita a uma suéter do homem que eu amo, por razões de pura pieguice. Não soneguei impostos (até porque no Brasil seria mais simples e impune um homicídio), não lembro se usei software pirata, mas compartilho obras em pdf, sim.

Traí e fui traída na mesma proporção, acho. Mas fui abandonada um número de vezes infinitamente superior.  Com meu mau gênio, não é surpresa. Não colava em provas. E não passava cola. Nunca plagiei um trabalho acadêmico, mas já fui descaradamente plagiada.

Evito deixar as pessoas esperando. E se deixo, aviso. Mas sempre espero. Cumpro prazos. Não dou calote – no máximo, contingências me impedem de pagar pessoas jurídicas, que prontamente cortam seus serviços.

Desenho mal. Escrevo bem. Tenho algumas noções sofríveis de música, artigo de luxo nesse país. Esforcei-me muito para aprender a expressar-me através da dança. As demais artes nunca me foram acessíveis.

Acho que me ajeito razoavelmente bem em dois idiomas, me viro em outros três, conheço um sexto e tô aprendendo um sétimo. As pessoas acham isso muito legal, mas eu sempre acho que se tivesse tido internet na adolescência eu faria tudo isso muito melhor. Mesmo porque é minha área, sou uma nerdzinha dos infernos e não é mais que minha obrigação.

Tenho fé, mas nem por isso agi sempre de acordo com a intenção de Deus. E nem sempre foi ignorância, teve muita teimosia, mesmo. Quase sempre levada pelo coração, esse puto inconsequente.

Não espero servir de exemplo para ninguém. Nem bom, nem mau. Sou muito adepta do adesivo traseiro do geminiano: “não me siga, não sei para onde estou indo”.

Isso não é uma explicação, nem uma justificativa. É uma reflexão, mais para mim mesma que para qualquer um.  Aos 45, apesar do riso de alguns, por algum motivo me sinto bem perto da morte. Não entendo o mundo como está agora e não sei se quero. Minha única pretensão é sair desse corpo melhor do que entrei, um pouquinho que seja. Mas pretensão nem é esperança.

 

 

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Tsunami

08/06/2017

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Nesses dias de recolhimento eu surfo um gigantesco tsunami quente, espesso e doce, onde as ondas são formadas pela intensidade das minhas emoções.

Quando eu estava mergulhada no meio do mundo, elas me chicoteavam com firmeza, mas brevemente se iam. Aqui o ritmo é mais lento e a intensidade é maior.

Você passa mais de quarenta anos correndo pelas pontes entre lagos e arroios,  sendo respingada, açoitada pelas águas, encharcada muitas vezes. E acha que entendeu a natureza da água. Então, te deixam num botezinho frágil, que já chegou a parecer muito seguro e confortável, onde você dormita e acorda no meio do oceano.

E então você entende uma dimensão que só havia na vastidão do mar.  E você percebe, pela primeira vez, que pode ser que não exista saída. Que pode ser que dessa vez você não saia vivo da experiência. Ou que saia da vida com a experiência ainda dentro de você.

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Respeito

07/06/2017

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Eu vaguei e rumei por muito tempo sem entender o que estava buscando. Sem entender porque não me curava, sem entender porque as coisas não fechavam, sem conseguir vislumbrar saídas.

Não podia compreender e deixar de censurar meus constantes acessos de ira, essa revolta infinita dentro de mim que eu não conseguia conter por mais que me esforçasse. Não conseguia deixar de pensar o quanto eu era uma pessoa péssima, insuficiente, cobradora, irascível.  Como era possível que eu perdesse tão facilmente o controle sobre mim?

Logo eu, que costumo ser classificada como tão contida.

Quando num extremo de dor e de sem saída, simplesmente me afastei de tudo com o firme propósito de que, se nada de útil podia fazer, mais útil seria deixar os caminhos de limpos de mim.

E no silêncio, reencontrei a paz. E na paz, descobri que o que me faltara aquele tempo todo fora respeito. Respeito do outro e, principalmente, de mim, para não permitir que o respeito do outro me faltasse.

Respeito à minha privacidade.

Respeito ao meu tempo. Porque o relógio é o mesmo para todos e se eu posso fazer na hora combinada, todos podem. Ainda que vivamos num mundo em que todos são os mais ocupados do mundo e a sua pontualidade é tomada como ócio.

Respeito ao meu trabalho e às minhas capacidades.

Respeito aos meus sentimentos e à minha natureza de mulher.

Respeito ao meu esforço, às minhas tentativas e minhas realizações cobertas por tanta crítica.

Respeito à minha vulnerabilidade e às minhas escolhas.

Ao me afastar, me devolvi tudo isso. Ao me afastar, me devolvi a mim.

 

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Os segredos que ninguém quer desvendar

02/06/2017

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Pode ser que ela fale mais do que seja confortável. Pode ser que ela chore. Pode ser mesmo que ela grite às vezes.

Mas a verdade é que, com tudo isso, você não está nem perto de saber do que se passa no coração de uma mulher. Quanta dor cabe num espaço tão pequeno. Quantas feridas você ativou, quantas cicatrizes você abriu, quantas pequenas terminações nervosas sua insensibilidade irritou.

Dificilmente você vai saber o quanto você realmente importou para ela. Seja para mais ou para menos. Não importa o que ela diga.

O que importa é o que ela faz por você e o que você vê quando ela olha dentro dos seus olhos. Mas claro, você provavelmente não tem muito tempo para isso. Quem tem tempo para ler um olhar nos nossos dias.

Existe trabalho e compromissos, inúmeros compromissos. Os homens que abraçaram a modernidade precisam buscar dinheiro até o quase suicídio para se sentirem importantes. Precisam ter algo para lembrarem-se de quem são. Apenas ser é arte que não sabem mais, ficou com a sabedoria dos avós.

E a compreensão do que deixaram para trás, a consciência daquele coração lacerado que os quis mais que a razão, ficará para a terceira idade, para os remorsos que colecionamos antes de morrer.