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Festa da vida

19/06/2018

WhatsApp Image 2018-01-22 at 13.53.24 (2)As pessoas na rua deviam mesmo achar estranho uma mulher caminhar tão feliz no meio de tanto frio.  Eu estava voltando do meu primeiro dia no meu primeiro emprego de verdade desde que voltei ao Brasil.

E não que empregos fixos sejam tão importantes assim, mas pela primeira vez desde que cheguei em terras brasileiras consegui reunir um lugar agradável onde desejam meu trabalho, com uma carga horária justa e uma remuneração honesta. E registro, benefícios, essas coisas esquecidas em plena era Temer.

Outro motivo de eu me sentir tão bem é que amanhã é meu aniversário. Completo 46 outonos.

E pela primeira vez, em quatro anos, isso me deixa contente. Independente de quem esteja ou não. Independente de como se vai celebrar ou deixar de celebrar.

Eu estou feliz porque amanhã meu dia começa cedo com um trabalho que eu não odeio. Eu estou feliz porque, incrivelmente, contra toda torcida e prognóstico, eu cheguei até essa idade. Eu estou feliz porque eu superei muita coisa. Porque eu ainda estou aqui. Porque eu posso levar muita alegria para muita gente. E porque eu me orgulho das escolhas que fiz e da mulher que me tornei.

2018. Este é o ano em que eu cheguei no Polônio. O cabo. El cabo de los doce segundos de oscuridad. Y volví caminando por las dunas. Nada mais pode me deter.

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Clandestina

09/06/2018

cigholo

Três meses de abandono total desse blog. Porque a vida se tornou um aglomerado de sentimentos clandestinos que ninguém pode saber.

E mesmo que pudessem, como explicar uma mulher à beira dos 46 que não ideia alguma do que fazer da sua vida? Mesmo que ela tenha conhecimento, línguas, domine algumas artes ocultas e outras de alcova, mesmo que ela não aparente exatamente a idade que tem.

Sentimentos clandestinos, numa vida de contrabando, sem papel nem registro, sem berço nem lápide, um risco de lápis branco numa parede esquecida.

Para chegar onde nunca chegamos, todos sabem que é necessário fazer o que nunca fizemos. Mas ninguém te diz que isso pode te levar pra buracos profundos como você nunca desceu.

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Meninos turcos também choram

09/03/2018

Então sua mãezinha se foi. Porque é o destino de todas as mães.

E agora você traz o coração cheio de arrependimentos e culpa, sempre a sensação de não ter feito o suficiente, esquecendo que cuidou dela por 20 anos – e esse não é o destino de todos os filhos.

Ainda mais, filhos homens. E no seu país.

Você escolheu não se casar. Recusou a solução fácil de arrumar uma esposa novinha e ingênua para ser a enfermeira gratuita que facilita a vida. Não queria essa vida para uma mulher que você amasse, me disse.

Em um mês em que o estado dela se agravou, seu corpo sem excessos perdeu seis quilos. E você não buscou ninguém para enxugar suas lágrimas. Você não consegue, você diz. Eu queria muito estar aí. Tenho um abraço que é uma arma brutal contra couraças emocionais.

Eu sei que por mais que você possa ter ocasionalmente se irritado, ficado impaciente, você fez o seu melhor. E eu tenho certeza que onde quer que ela esteja, está muito feliz de ter tido você como filho. Eu duvido que algum filho tenha sido melhor, nesse mundo todinho.

Sinta falta dela, meu querido, mas não se culpe por ser humano. Eu passei pelo mesmo com minha própria mãe e sei que não tive metade da sua dedicação. E mesmo assim, era o melhor que eu podia no grau de evolução que estou.

Siga tranquilo, a dor vai diminuindo. Siga tranquilo, você cumpriu sua missão. Serene seu coração. O meu e as minhas preces estão contigo, apesar desses ficcionais 12 mil quilômetros que nos separam. Obrigada por me ensinar mais uma vez o que é essa coisa incrível chamada amor.

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Carta aberta a um amigo distante (de coração próximo)

11/01/2018

cabelo

Eu devia escrever todas essas coisas para você, mas talvez você nem tenha cabeça para ouvi-las. Por outro lado, inglês entre não nativos é uma língua tão fria… e não tenho domínio suficiente do seu idioma para esse tipo de conteúdo.

O que você já sabe é que meu coração e minhas orações estão com você. E que eu sei bem como você se sente. Eu sei exatamente o que é ser “o único parente responsável presente”. Aquele que se encarga de todas as decisões, paga todas as contas e segura sempre as muitas culpas secretas.  E se eu  tivesse levado naquele médico? E se tivesse feito aquele exame antes? É um peso tão grande.

Você sabe que para mim não parece dramático. Que eu sou tão intensa quanto você. Praticamente uma turca expatriada.

O que você não sabe é que se fosse eu, talvez não aguentasse tanto tempo cuidando de uma pessoa. Você faz por décadas o que eu fiz por três anos. E achei que renunciei um bocado.

Que eu conheço o frio na barriga de pensar em possibilidades e não saber onde tudo isso vai parar. Quanto sofrimento pode vir, quanto terá de ser suportado ainda. E o quanto nos sentimos pequenos. E do quanto nos sentimos infinitamente culpados por passar rapidamente por ideias libertadores que não pronunciamos nem em nossa própria mente.

E você talvez não saiba o quão real é o meu desejo de poder cruzar os doze mil quilômetros que nos separam e te dar um abraço de urso. E enxugar suas lágrimas nas minhas mangas. E deixar você derreter como iceberg e soprar para você endurecer de novo. Ser o recipiente dessa dor que você não mostra de verdade para ninguém.

Porque apesar de termos nascido em terras tão distantes, falarmos línguas tão diferentes, professarmos religiões distintas, estarmos imersos em culturas com pouco em comum, você é um pedacinho de mim do outro lado do imenso oceano.

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Da reciprocidade

03/11/2017

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As pessoas dizem para eu não me preocupar, porque eu ainda tenho a aparência muito jovem e estou longe de mostrar a idade que tenho. Na verdade, isso não me preocupa e ainda não me preocuparia se fosse o contrário.

O que me preocupa não é a aparência do meu corpo. Mas o fato de eu me sentir deslocada porque as regras de convívio social mudaram muito nas últimas décadas e eu não consigo aceitar as novas. Não consigo estar confortável com a cultura do umbigo, apenas isso. E o mais chato:  isso está totalmente arraigado nas pessoas da minha geração que estão ficando muito confortáveis com  a desobrigação nas amizades.

Não vou te dizer que antes não havia falta de retorno e pessoas que só tinham tempo para falar de si mesmas. Sempre houve. Mas ao menos, se dava uma disfarçadinha. Era socialmente condenável ser autocentrado. Deixar no vácuo era claramente uma forma de falta de educação.

Agora, claramente, não. Claramente, foda-se.

As pessoas ditas ocupadíssimas acham completamente natural que você tenha tempo se elas tem que desabafar ou contar algo legalérrimo da vida delas, com fotos e vídeos e todos os detalhes. Mas na primeira frase que você diz sobre sua vida, elas estão muito cansadas, com os olhos ardendo de trabalhar e precisam ir.

É completamente natural que você tenha disponibilidade madrugada adentro para segurar a onda de quem teve uma perda emocional. Ninguém nem olha para o relógio nessas horas. Mas as pessoas não acreditam que os SEUS problemas possam ter alguma melhora com conversas. É melhor procurar um profissional.

Pesssoas declaramente num caminho espiritual não tem tempo para ver pessoas porque estão muito focadas em obter dinheiro para cumprir seus objetivos espirituais (oi?) e falam sobre amor o tempo todo, mas isso não envolve pessoas, compreende? É mais universal e impessoal.

Enfim, váááááários exemplos poderiam ser arrolados aqui.

Mas o que eu acho mais cruel nisso tudo é que cada vez que eu toco nesse assunto, seja pessoal ou publicamente, como agora, é a coisa mais proibida a se fazer. Sei que vai vir mais de um “amiga, não se expõe. Com esse discurso de cobrança você vai assustar as pessoas.” Que pessoas, companheiro? Sei que vocês se sentem francamente cobrados, porque houve um tempo em que reciprocidade era uma coisa óbvia. Mas não é por mim, não.

As pessoas desaprenderam a se relacionar. Ao menos, de modo que cause uma sensação agradável no outro. E as poucas que ainda sabem, abandonam as relações com facilidade, porque já apreenderam que esse tipo de relação é dependente e perigosa. Que você deixar de fazer qualquer coisa que queira em prol de outra é uma anulação (ainda que seja dar um pause no Netflix por cinco minutos).

Porque, sinceramente, eu já não digo mais nada em nível pessoal. Sinceramente, não me importa mais. Como em certos relacionamentos românticos, percebi que gente é uma coisa da qual eu gosto, mas não preciso.

Se eu ainda ouço as pessoas e as ajudo em alguma coisa, é porque isso não é um sacrifício tão grande assim para mim. Me é prazeroso. Meu ego não está tão alimentado a Toddy ainda – não que seja pequeno.

Mas fico observando e me preocupo. Para onde estamos indo em tanto egocentrismo?

Desculpa te contar, mas ser um ser humano decente não se limita a bons posicionamentos políticos e gostar de músicas descoladas.

Prevejo tempos sombrios.

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Da dor como rotina

28/07/2017

cervical

Dor. É para ser um evento esporádico. Mas às vezes não é e precisamos conviver com essa realidade.

O ombro direito, até o meio do braço, me dói todos os dias há meses. Na última semana, um ponto a meio caminho entre a nuca e o pescoço, também do lado direito, lateja continuamente. Com esse latejar constante, é comum que a cabeça comece a doer junto. Ontem, foi tão intenso que deu náuseas. Ocasionalmente, isso inclui a participação da minha cervical.

Não se preocupem porque não é nada grave. Só resultado da postura para trabalhar, mais deixar pequenas dores se acumularem sem cuidar, mais uma somatização absurda.

Porque me dói o corpo, mas a alma dói mais ainda. Nunca pensei que a deslealdade e a ausência pudessem doer tanto. Como se tivessem arrancado um pedaço e estivesse em carne viva. E tiram a casquinha todos os dias, porque é importante que permaneça sangrando.

O aprendizado com essa constância é ter paciência consigo mesma e seguir em frente. Todo dia é preciso avaliar até onde dá. O que eu consigo fazer. Até onde dou conta de ir. Forço um pouco mais ou pego um pouco mais leve comigo? Todos os dias tenho que descobrir a resposta.

Não estou só. Tenho amigos queridos e uma terapeuta maravilhosa que me permitem transpor de uma semana para a seguinte. Mas a decisão, essa, do até onde, do até quando, do até quanto, apenas eu posso tomar.

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Machacando recuerdos

05/07/2017

Fresh herbs with a mortar and pestle and vegetables on a woodenPreparando num velho almofariz a mistura verde com que curo minhas mazelas, como uma velha bruxa do século XII ou menos, vejo no fundo de tudo as lembranças que saem como a seiva das folhas.

Um dia esse mesmo almofariz triturou limão e mascavo para a caipirinha de um piquenique noturno.  E o cheiro do café todos os dias me traz o seu riso.

E eu nunca mais preparei brigadeiro, porque é doce de comer, não de colher, mas na sua boca. E me falta recipiente.

Mas tão antigo é o movimento de triturar e tão imemorial o odor das ervas esmagadas que me lembro também do sol no seu camisão branco de dormir ao meu lado, meu querido esposo, em uma casinha de madeira e  barro e palha no meio de uma plantação qualquer muito ao leste daqui. E do seu braço de soldado me soerguendo sobre a montaria, no percurso leve de amor que me levaria para a morte.

E outras memórias antigas e atemporais que faço força para pulverizar junto ao sal grosso.