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Queda de braço

17/04/2017

Resistindo, lutando, aguentando. Suportando mais dor do que seria razoável.

Tendo que argumentar, lutar, defender o que seria o óbvio. Estou cansada.

Conviver com os outros seres humanos se torna cada vez mais cansativo – o que não significa que não reconheça meus defeitos. Reconheço. Mas não suporto mais justificar o afeto.

Eu não suporto mais que seja tão difícil suportar, não meus inúmeros defeitos, mas as poucas qualidades que briguei tanto para desenvolver em mim.

Pagar o preço não da minha incoerência, mas da alheia.

Eu não quero ter que deixar os valores que acredito para não ser massacrada por quem não compreende os próprios valores. Não quero pedir desculpas por ser quem escolhi ser.

Porque eu voltei de viagem disposta a ser muito mais eu mesma. E lamento muito se você não se enquadra.

 

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Pequeño cuento de bruja

13/04/2017

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Diabo de mulher, que não me tira os olhos de cima. E quando tira, me vê com outros olhos.

Que me vê na meditação da manhã. E não larga de sonhar comigo. Lembra de mim soldado de Deus, quando eu não sei de nada. Eu não lembro dessas coisas. Um dia acordou do meu lado e me contou como era quando fomos marido e mulher. E fica me sentindo e vendo sinais. Tira as cartas pra mim sem me consultar e perscruta meu destino nos céus.  Diz dos meus olhos coisas que eles nunca tiveram.

Para que raios serve isso na vida de um cristão? Eu não quero saber as coisas que não sei. Prefiro não ouvir do que vai acontecer, se mal entendo o que acontece agora. Nem quero ela mais do meu lado. Não, isso não é para mim. Preciso de gente normal pra conviver.

Verdade que longe também incomoda um pouco. Mas por que ela tem que ser assim? Por que de tantas mulheres, logo uma bruxa? Por que com tantos homens para amar, logo a mim?

É certo que nunca estou sozinho, nem dormindo. Quem disse que isso é bom?

 

 

 

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Punto de no volver

11/04/2017

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A dor de ver aquele que mais amas não saber diferenciar um copo de leite com mel de um copo de cal viva e encher a boca de veneno até sair pelos cantos.

Estar naquelas situações que não há solução. Nem escapatória. Só cair e se aprumar, cair e se aprumar. Cair e se aprumar. Uma vez e outra e de novo.

Porque há situações em que só a intervenção divina ou a morte. Quem chegar primeiro.

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Partida

17/03/2017

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Quando parte fora, algo se parte dentro. Eu parto, mas sua partida antes de eu partir partiu algo em mim.

E sangra e transborda, mas tem que ser. As coisas tem que ser, que seguir. O mundo pede pragmatismo. Eu vou.

Hoje seu café foi servido na xícara daquele que partiu há muito. Porque as que eram nossas eu parti. Por acidente ou por vontade.

Eu fico longe do seu cheiro, da sua gargalhada, da sua pele. Eu fico longe das suas piadas tolas e do seu riso safado. Mas eu levo a sua energia em mim. Eu levo o pulsar do seu coração nos meus ouvidos. Eu levo o toque dos seus cabelos na ponta dos meus dedos. E o sentimento mais puro que já senti dentro do peito.

Hasta pronto.

 

 

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Negro mar

06/03/2017

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Meu coração segue tão nebuloso e cheio de mistérios como os vales da região turca de onde vem a música que embala minha alma.

Um conjunto de instrumentos exóticos de sonoridade pungente, poderosas vozes afinadíssimas, letras cheias de melancolia e de uma dor encarada de frente e pelos chifres, nada parecido com as filas andantes e a livre concorrência da sociedade atual. O ritmo às vezes se torna frenético, mas elas nunca flutuam no raso.

Um mundo de silêncios, contemplação e longas conversas de longas pausas regadas a çay.

Ouvindo essas canções é como se carregasse meu coração pesado por entre os vales de verde tão escuro que desconheço. Uma caminhada sem rumo como as que faço por dentro dos teus grandes olhos de mouro, me segurando nas tuas pestanas longas para não cair no abismo.

Em ambas me encontro igualmente perdida e igualmente entregue. Não se pode fugir de uma torre de névoa que, quando se vê, já te está envolvendo de novo. E de novo. Quando se empreende viagem por um território tão obscuro e desconhecido quanto os vales à beira do Mar Negro ou o amor profundo.

Vez por outra escolho uma direção e sigo. O que deixa todos atônitos. Mas num mundo cego, intuição é luz intensa. Desafiando toda lógica, toda prudência, todo bom senso.

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Triste historia de una muñeca rota

01/03/2017

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Era uma vez um menino muito doce. De olhos grandes e puros, brilhantes. Curioso e esperto, como toda criança.

Um dia, numa das caixas antigas do porão, ele encontrou uma antiga boneca japonesa. Apesar do uso, ela era bonitinha e ele se encantou porque os corações dos meninos doces se encantam por todas as coisas fofas.

E porque gostou dela, brincou muito com ela por uns meses. Sempre escondido no porão.

Ela parecia gostar. Até parecia ter recuperado o brilho antigo.

Mas ele não aguentava mais brincar no porão. Se sentia meio culpado, a mãe perguntava onde estava, os amiguinhos. Só não podia sair com aquele brinquedo tão delicado na frente de todos. O que iam pensar?

Ao mesmo tempo, quando a guardava e brincava fora, sentia falta. Seu brinquedo preferido se tornou sua maior vergonha, seu segredo.

Para não sentir falta, ele a levava consigo às vezes. Mas como era algo muito vergonhoso, ele sempre a escondia rapidamente. Ela foi lascando aqui, perdendo um pedaço ali.

Tentou deixar ela um tempo mais longo no porão, se controlando. Mas ela começou a mofar, um rato roeu sua roupinha e lhe deu pena. Voltou a andar com ela por aqui e por ali, escondida em cantos estreitos, obscuros, apertados da mochila

Ela ia ficando cada vez mais rota e feia. Às vezes ele ralhava com ela, pois ela não parecia mais tão feliz em brincar quanto antes.

Ele sabia que se seguisse escondendo,  ia acabar com ela destruída. Mas não queria perdê-la para os ratos do porão. Tinha, porém, horror da ideia de expõ-la a público. Um ou dois meninos que descobriram seu segredo o censuraram e lhe davam muito medo. Ficava com a espinha arrepiada só de pensar.

Condenou-se a perder de todo modo o que lutava tanto por reter.

 

 

 

 

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Al borde

17/02/2017

abismo

Estoy atrapada al borde de un abismo, donde no logro salir ni caer.

No existe control. No existe descanso. Solo el  equilibrio de un momento eterno, sin vuelta ni avance.

No alcanza hacer esfuerzo. No hace falta cerrar los ojos.

Como el ahorcado del tarot, colgada arriba del irremediable.

La mente navega en un mar de posibilidades. Si no hubiera vuelto. Si no hubiera me quedado. Si no hubiera dejado. Si no hubiera permitido. Si no hubiera dicho. Si no hubiera besado.

La verdad es que volvi. Y me quedé. Y dejé, permiti. Lo dije. Y besé.

Y todo eso me he dejado al borde donde aguardo el momento de caer o de ser salva en un lapso de tiempo relleno de inverosimilitud.