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Rompe

15/05/2017

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Na vida, eu me apaixonei por muitas pessoas. Muitas.

Mas algumas eu julgava especiais. Porque algumas eu acreditava que não eram capazes de abandonar. Nem todas eram relacionamentos românticos.

E a idade me ensinou uma coisa sobre isso. Existe um fator comum aos seres humanos. TODOS ABANDONAM. Cedo ou tarde. Amigos, namorados, irmãos, filhos.

E alguns pais. Não deixo de pensar que os que não o fizeram foi só porque a morte os levou antes..

E é cada vez mais comum. É a solução mais prática. Ou a única, segundo alguns, para justificar seu grau de covardia.

O abandono resolve a tristeza que eu não quero ver. O peso que eu não quero carregar. A decisão que eu não quero tomar. O abandono é o que é justo para mim. Porque eu não posso carregar o mundo nas costas. E merecimento não tem nada a ver com isso, segundo muita gente boa que eu conheço.

Enfim, o que eu estou a fim de fazer prevalece sobre tudo. Prevalece sobre o sofrimento do outro, sobre a sua necessidade. O que eu estou a fim de fazer justifica tudo.

E o que eu descobri com os anos é que isso os nivela a todos, meus queridos.  Homens ou mulheres, vocês são todos iguais. O amor que eu tenho por cada um é os que os distingue. O amor que não conseguem sentir por mim os iguala.

 

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Das bases

09/05/2017

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E de repente, suas últimas confianças são pó. O alicerce era fraco demais. Tudo desmorona.

Toda rocha era pedra sabão. Ou talvez mesmo,  uma pedra de sabão.

Não há nada, não há nada. Não há onde se apoiar e isso mina a vontade de ir adiante. Porque se eu der um empurrão não sei onde meus pés vão parar.

O sentido deixa de fazer sentido. A vida é um receptáculo oco flanando no vento.

Não há porque discutir quem está certo. O único desejo é deixar de existir.

 

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Em busca da leveza perdida

25/04/2017

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Hoje é certo que o corpo ficou mais leve, mas a alma anda mais pesada.

Sinto saudade de mim mesma livre, dançando descalça sob o sol ou em torno de uma fogueira. Sinto saudade do meu vasto grupo de amigas mulheres, com suas crianças que sentavam no meu colo com intimidade.

Saudade de apreciar a delícia de um pão de aipim com café com leite, de não ter tanta lembrança atrás e tanta imprecisão à frente. Sei que a solução para isso é viver meu momento presente, mas as linhas do tempo se embaraçaram e ainda estou buscando meu no presente onde por os pés.

Uma saudade extrema da minha ignorância. De não ver, não intuir, não lembrar.  Saudade de não ter morado em Montevidéu e só imaginar como poderia ser. Saudade de não ter provado algo que sempre procurei,, e por não haver provado, ainda não haver perdido.

Saudade de não ter que lutar diariamente com esse tsunami de sentimentos tão intensos.

Queria apenas dançar sob o sol, com as crianças. Tomar chá cigano e rir da vida. Não ter muito dinheiro, nem muita expectativa. Apenas desfrutar de ser, como antigamente.

 

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Queda de braço

17/04/2017

Resistindo, lutando, aguentando. Suportando mais dor do que seria razoável.

Tendo que argumentar, lutar, defender o que seria o óbvio. Estou cansada.

Conviver com os outros seres humanos se torna cada vez mais cansativo – o que não significa que não reconheça meus defeitos. Reconheço. Mas não suporto mais justificar o afeto.

Eu não suporto mais que seja tão difícil suportar, não meus inúmeros defeitos, mas as poucas qualidades que briguei tanto para desenvolver em mim.

Pagar o preço não da minha incoerência, mas da alheia.

Eu não quero ter que deixar os valores que acredito para não ser massacrada por quem não compreende os próprios valores. Não quero pedir desculpas por ser quem escolhi ser.

Porque eu voltei de viagem disposta a ser muito mais eu mesma. E lamento muito se você não se enquadra.

 

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Pequeño cuento de bruja

13/04/2017

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Diabo de mulher, que não me tira os olhos de cima. E quando tira, me vê com outros olhos.

Que me vê na meditação da manhã. E não larga de sonhar comigo. Lembra de mim soldado de Deus, quando eu não sei de nada. Eu não lembro dessas coisas. Um dia acordou do meu lado e me contou como era quando fomos marido e mulher. E fica me sentindo e vendo sinais. Tira as cartas pra mim sem me consultar e perscruta meu destino nos céus.  Diz dos meus olhos coisas que eles nunca tiveram.

Para que raios serve isso na vida de um cristão? Eu não quero saber as coisas que não sei. Prefiro não ouvir do que vai acontecer, se mal entendo o que acontece agora. Nem quero ela mais do meu lado. Não, isso não é para mim. Preciso de gente normal pra conviver.

Verdade que longe também incomoda um pouco. Mas por que ela tem que ser assim? Por que de tantas mulheres, logo uma bruxa? Por que com tantos homens para amar, logo a mim?

É certo que nunca estou sozinho, nem dormindo. Quem disse que isso é bom?

 

 

 

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Punto de no volver

11/04/2017

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A dor de ver aquele que mais amas não saber diferenciar um copo de leite com mel de um copo de cal viva e encher a boca de veneno até sair pelos cantos.

Estar naquelas situações que não há solução. Nem escapatória. Só cair e se aprumar, cair e se aprumar. Cair e se aprumar. Uma vez e outra e de novo.

Porque há situações em que só a intervenção divina ou a morte. Quem chegar primeiro.

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Partida

17/03/2017

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Quando parte fora, algo se parte dentro. Eu parto, mas sua partida antes de eu partir partiu algo em mim.

E sangra e transborda, mas tem que ser. As coisas tem que ser, que seguir. O mundo pede pragmatismo. Eu vou.

Hoje seu café foi servido na xícara daquele que partiu há muito. Porque as que eram nossas eu parti. Por acidente ou por vontade.

Eu fico longe do seu cheiro, da sua gargalhada, da sua pele. Eu fico longe das suas piadas tolas e do seu riso safado. Mas eu levo a sua energia em mim. Eu levo o pulsar do seu coração nos meus ouvidos. Eu levo o toque dos seus cabelos na ponta dos meus dedos. E o sentimento mais puro que já senti dentro do peito.

Hasta pronto.